“Meu pai entrou no hospital com dores nas pernas e saiu de lá morto”, diz filha de advogado

Da Redação
13/05/2014 11:44:00
“Meu pai entrou no hospital com dores nas pernas e saiu de lá morto”, diz filha de advogado

[imagem] Por volta das 13h00 de quarta-feira (7) o advogado Ivan Roberto Alves de Castro, 62 anos, morador no Serra Azul, deu entrada no Pronto Socorro do Hospital Municipal de Paulínia, sentindo fortes dores nas pernas e acabou falecendo às 22h10min (horário da declaração de óbito) do mesmo dia. A família do Doutor Ivan, como era conhecido o advogado, suspeita de negligência no atendimento do HMP. O advogado foi levado ao PSM por um vizinho amigo, que não pôde ficar com ele porque estava trabalhando. 


Fernanda Menali de Castro e Nathalia Menali de Castro, filhas da vítima, conversaram com nossa reportagem sobre a morte suspeita do pai. “Meu pai entrou no hospital com dores nas pernas e saiu de lá morto. Deram soro com dipirona para ele e pediram exame de sangue, cujo resultado só saiu depois das sete horas da noite, porque, segundo o pessoal do hospital só há um técnico para fazer a análise”, conta Fernanda, grávida do segundo neto do advogado, que infelizmente ele não vai conhecer. Já Nathalia relata que durante o tempo em que o pai ficou em “observação” foram levantadas duas possibilidades de diagnóstico. “Primeiro disseram que poderia ser gota (um tipo de artrite relacionada ao excesso de ácido úrico, que causa inflamação nas articulações) e depois dengue. Porém, até agora não sabemos o que causou a morte do nosso pai”.

A família Menali Castro então solicitou ao hospital o SVO (Serviço de Verificação de Óbito), que avalia as causas de mortes desconhecidas ou duvidosas. Diferente do IML (Instituto Médico Legal), que avalia mortes violentas, o SVO "estuda" o corpo através da necrópsia por profissionais qualificados, como médicos patologistas, técnicos em necrópsias e laboratoristas, que realizam diversas análises no próprio corpo, exames laboratoriais, entre outros procedimentos. “Na quinta-feira, um enfermeiro nos disse que a prefeitura não oferece o SVO e que se quiséssemos saber a causa da morte do nosso pai tínhamos que pagar o SVO e o traslado do corpo até o local aonde o serviço é prestado. Mais tarde, o secretário de Saúde (Renato Cardoso) deixou claro para nós que pela Constituição o hospital não tem obrigação de prestar o serviço”, conta Nathalia.

O caso foi registrado na Delegacia de Polícia Civil da cidade, sob o nº 2576/2014, como “morte suspeita”. “O doutor Anderson (Anderson Gomes Gabriel, diretor do HMP) nos disse que para o SVO ser realizado por conta do hospital precisávamos registrar um boletim de ocorrência na delegacia e assim o fizemos. Como a prefeitura não paga nada à vista, eles disseram que dariam um cheque particular, pois também queriam saber a causa da morte do meu pai”, afirmou a filha.  

De acordo com a Funerária Sales Vedovello o corpo do advogado foi levado para o Instituto Médico Legal (IML) de Americana, onde foi realizado o SVO pelo médico patologista José Ricardo Pereira de Paula. Segundo a filha Nathalia, o corpo do pai foi levado para Americana, por volta das 17h00 da tarde de quinta-feira (8) e retornou por volta das oito da noite, quando foi preparado para ser velado, no Velório Municipal. Doutor Ivan foi enterrado na manhã de sexta-feira (9), no Cemitério Parque das Palmeiras.

Jamir Menali, cunhado da vítima, também falou à nossa reportagem. “A morte do meu cunhado é suspeita e como tal tem que ser investigada. Ele não entrou no hospital por envenenamento ou com uma doença que o levasse à óbito em questão de horas, como ocorreu. Por isso, autorizamos a realização do SVO para descobrirmos o que de fato causou a morte dele”, disse Menali, que também é advogado. Segundo a família, o laudo com a “causa mortis” deve sair nesta quinta-feira (15). 

Suspeitas de negligência

O Correio Paulinense Online ouviu com exclusividade uma servidora pública municipal, que acompanhou o advogado Ivan Roberto Alves de Castro, entre as duas e meia da tarde e quase nove da noite, quando ele foi levado à sala de emergência do hospital e onde, segundo ela,  veio à falecer em decorrência de uma parada cardíaca. “Quando me informaram que ele estava no hospital fui correndo para lá, pois éramos amigos há muitos anos”, disse ela, que pediu para preservarmos a sua identidade. 

A servidora contou ter encontrado o advogado sentado em uma cadeira na Emergência do HMP. “Encontrei Ivan lúcido, conversando normalmente, tanto que falou ao telefone com uma das filhas, por duas vezes. Já tinha tomado 100ml de soro com analgésicos, mas, por outro lado, fiquei assustada quando vi que ele estava muito amarelo”, afirmou.  De acordo com ela, o primeiro médico à atender o advogado foi o clínico geral Luiz Kimiaki Wada, que solicitou exames de sangue e ácido úrico do paciente. “Ele deveria ter pedido também o exame de função hepática, devido ao quadro equitérico (amarelão na pele) que Ivan apresentava. Qualquer leigo percebia que ele estava muito amarelo”, frisou.

Ela foi informada pelo médico que o resultado do hemograma estaria pronto em duas horas. “A solicitação do exame deu entrada no laboratório do HMP por volta das quatro horas da tarde e o resultado só saiu às 19h04min. Fui até à sala de enfermagem em busca de um médico ou enfermeira que pudesse olhar os exames dele, mas não tinha ninguém. O de ácido úrico não apontava graves problemas, mas o hemograma apresentou grandes alterações. Quando consegui mostrar o exame à um enfermeiro e uma enfermeira ambos acreditaram ser dengue, devido ao baixo número de plaquetas no sangue do Ivan”, relatou. 

Segundo a funcionária pública, somente uma hora e seis minutos depois de receber os exames do advogado ela conseguiu mostrá-los à clínica geral Angela Bonilha, que estava começando o seu plantão daquele dia no hospital. “Isso foi às 20h10m e o Ivan ainda continuava sentado na mesma cadeira, desde a hora que deu entrada no Pronto Socorro”. A médica quis saber se Doutor Ivan já estava doente. “Disse à ela que ele havia tratado um câncer bucal, mas que eu não sabia precisar há quanto tempo”. Angela Bonilha, então, perguntou diretamente ao advogado, que respondeu: “uns seis meses”.  Notando que o paciente estava um pouco confuso, a médica decidiu perguntar-lhe em seguida quem era a presidente do Brasil e ele respondeu a mesma coisa – “uns seis meses”.

Neste momento, quase oito horas após a chegada no hospital, finalmente, Doutor Ivan foi colocado numa maca e o exame de função hepática solicitado. “Momentos depois a respiração dele começou a ficar ofegante, ele estava olhando para o nada e então o levaram imediatamente à uma sala da emergência, colocaram oxigênio, mas infelizmente ele teve uma parada cardíaca e acabou morrendo”, lamentou a servidora e continuou: “Se eu não estivesse lá ele tinha morrido sentado naquela cadeira, quando deveria ter recebido um atendimento rápido e digno”. 

De acordo com a declaração de óbito, o advogado faleceu às 22h10min de quarta-feira (7), enquanto o resultado do exame de função hepática somente ficou pronto às 22hs53min, ou seja, quarenta e três minutos depois. No campo da declaração onde deveria constar a causa da morte está escrito: “aguarda resultados de exames complementares”. 

Outro lado

Tentamos ouvir a Assessoria de Imprensa do prefeito Edson Moura Junior (PMDB) sobre a morte suspeita do advogado Ivan Roberto Neves de Castro, mas até a publicação desta matéria (vide horário no topo) o nosso e-mail não havia sido respondido.

Foto: Cedida pela Família

Comentar